Na primeira noite em que precisou atravessar a floresta, Hikari esperou o medo passar. Sentou-se entre as raízes de uma árvore, enrolou a cauda junto ao corpo e deixou a pequena lanterna entre as patas. Acima dele, os galhos escondiam o céu. Cada ruído parecia vir de alguma coisa maior. Suas orelhas acompanhavam os sons, seus olhos procuravam formas na escuridão. Hikari acreditava que saberia a hora de partir. e o coração ficaria tranquilo e as patas parariam de tremer então de algum modo, ele se sentiria pronto. Mas a noite avançava, e nada disso acontecia. Ajeitou a alça da lanterna tantas vezes que percebeu uma lasca solta na madeira. Contou as próprias respirações. Olhou para trás. Pensou em voltar. Foi quando ouviu um movimento perto de uma pedra. Uma pequena mariposa havia caído numa poça. Hikari aproximou a lanterna e estendeu um graveto. Esperou até que ela conseguisse se agarrar, depois a colocou numa raiz seca. Ficou ali por algum tempo, protegendo-a do vento com o corpo. Só quando ela abriu as asas Hikari percebeu: havia saído do lugar. Continuava assustado. A floresta continuava enorme. Ainda assim, enquanto cuidava daquela vida pequena, tinha encontrado algo que conseguia fazer. Ergueu a lanterna. Sua luz alcançava uma pedra, algumas folhas e o começo de uma trilha. Hikari examinou aquele pedaço de chão. Podia chegar até ali. Depois, daquele ponto, talvez enxergasse um pouco mais. Deu o primeiro passo com as patas tremendo. Ao longo do caminho, assustou-se com o próprio vulto. Escolheu uma passagem que terminou num emaranhado de espinhos e precisou voltar. Quando se cansou, dormiu sob uma raiz, abraçado à lanterna. Pela manhã, retomou a trilha. Foi assim que começou a conhecer a floresta: aos poucos, com enganos, pausas e pequenas descobertas. Aprendeu onde a água corria mansa. Quais galhos suportavam seu peso. Como o vento mudava antes da chuva. Algumas noites ainda eram difíceis. Nelas, Hikari baixava a lanterna, procurava um lugar seguro para apoiar a próxima pata e lembrava daquela primeira travessia. Havia caminhado com medo antes. Podia tentar novamente. E, sempre que encontrava alguém parado à beira da trilha, abria espaço ao seu lado e aproximava a luz. “You don't have to be fearless to keep going.” Você não precisa estar sem medo para continuar.